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O que é o HPV, que atinge metade da população jovem brasileira

Dados são de pesquisa do Ministério da Saúde; doença pode causar câncer, mas tem tratamento e pode ser prevenida

Uma pesquisa divulgada nesta segunda-feira (27) pelo Ministério da Saúde mostrou que 54,6% da população jovem brasileira está infectada com HPV (papilomavírus humano), vírus que pode causar câncer do colo do útero, entre outros. A pesquisa foi realizada em todas as capitais do Brasil e teve participação de 7.586 pessoas, com idades entre 16 e 25 anos. Destas, 2.669 foram testadas para HPV, e mais da metade apresentou infecção pelo vírus. Entre os participantes, 38,4% apresentaram tipos de HPV que podem causar câncer.

A alta prevalência de infecções por HPV na população não é exclusividade do Brasil. Nos Estados Unidos, estima-se que a incidência seja semelhante. Isso ocorre porque o vírus do HPV é muito contagioso e, além disso, não pode ser prevenido apenas com o uso de preservativo. O infectologista Juvêncio Furtado, professor de Infectologia da Faculdade de Medicina do ABC e Chefe do Departamento de Infectologia do Hospital Heliópolis, disse que a situação não pode ser considerada uma epidemia, porque não há mudança expressiva na incidência. Mesmo assim, diz, ela é preocupante. “É um problema de saúde pública. A população precisa saber que é prevenível e curável. Mas, se avançar, a situação pode complicar. É importante ficar atento à detecção precoce e à prevenção.”

De acordo com o Ministério da Saúde, esta é a primeira pesquisa que analisa os dados de prevalência do vírus no Brasil. A informação é importante para monitorar o impacto da vacina, oferecida pela pasta, contra o HPV. A pesquisa mostrou ainda que 16,1% dos jovens tinham uma infecção sexualmente transmissível prévia ou apresentaram resultado positivo para HIV ou sífilis.

Entre as capitais analisadas, Salvador apresentava a maior taxa de prevalência de HPV (71,9%), seguida por Palmas (61,8%) e Cuiabá (61,5). As menores taxas estavam em Recife (41,2%), Florianópolis (44%) e Maceió (45,1%).

O que é HPV?

Existem mais de 150 tipos diferentes de vírus para o HPV, identificados geneticamente, que podem infectar a pele e as mucosas. Cerca de 40 tipos podem infectar as regiões anal e genital, segundo o Inca. Pelo menos 13 tipos são considerados fator de risco para câncer.

A maioria das pessoas infectadas pelo HPV não apresenta sintomas aparentes. Estima-se que 5% das pessoas infectadas apresentem lesões. Elas podem se manifestar de forma clínica, com o aparecimento de verrugas, ou sub-clínica, não visível a olho nu, como as que aparecem no colo do útero.

O diagnóstico de uma infecção sem sintomas se faz apenas por exames de biologia molecular, que mostram a presença do DNA do vírus. Mas o mais indicado é procurar pelas manifestações do vírus. As verrugas podem ser detectadas em homens e mulheres por meio de exame clínico. Já as lesões subclínicas aparecem em exames laboratoriais (citopatológico, histopatológico e biologia molecular), ou em exames como a colposcopia, peniscopia e anuscopia, que usam reagentes químicos para contraste.

Não há tratamento específico para eliminar o vírus. Normalmente, as infecções regridem naturalmente. Mas as lesões e verrugas podem ser tratadas com laser, eletrocauterização ou outras técnicas. O tratamento de lesões precursoras de câncer é essencial para reduzir a mortalidade na incidência de câncer do colo do útero.

Qual a relação do HPV com o câncer?

De acordo com o Inca, infecções por HPV costumam regredir espontaneamente. Mas, quando ela persiste e é causada por um tipo viral chamado de oncogênico (ou seja, que tem potencial para causar câncer), pode haver desenvolvimento de lesões precursoras. Se não forem tratadas, elas podem evoluir para um câncer. Os casos mais comuns são de câncer de colo do útero – o exame preventivo (papanicolau) é imprescindível para preveni-lo. Mas tumores também podem aparecer na vagina, vulva, ânus, pênis, orofaringe (parte da garganta) e boca.

Pelo menos 13 tipos de HPV são oncogênicos. Entre eles estão os tipos 16 e 18, presentes em 70% dos casos de câncer de colo do útero. As lesões precursoras são tratáveis e curáveis. Estas lesões, assim como o câncer em estágio inicial, não apresentam sintomas. Se não tratadas, podem provocar sangramento, corrimento e dor. A orientação é sempre procurar ajuda médica.

Estar infectado pelo HPV não significa, necessariamente, que a mulher vá desenvolver câncer de colo do útero. O Inca afirma que, das 291 milhões de mulheres no mundo que portam o HPV, 32% (cerca de 93 milhões) têm os tipos 16 ou 18, que podem causar câncer. A incidência anual de câncer do colo do útero, porém, é de 500 mil casos.

A incidência de mortes devido ao câncer de colo de útero tem uma forte conotação social. As taxas de mortalidade no Norte do país são mais altas que no resto do país. Isso se deve à falta de cuidados médicos, que prejudicam a detecção precoce das lesões. “É o câncer da pobreza. Só morre quem não tem acesso a ginecologista e a um bom laboratório [de análise do papanicolau]”, disse Sérgio Bicalho, coordenador do programa de prevenção do câncer do colo do útero e de mama da secretaria de saúde de Minas Gerais, ao jornal Folha de S. Paulo.

Como o HPV é transmitido?

O HPV é um vírus transmitido sexualmente. Como o contágio ocorre por contato direto com a pele ou mucosa infectada, não precisa haver penetração (vaginal ou anal) para que uma pessoa seja infectada. É mais provável que a contaminação ocorra quando há lesões, mas a transmissão pode ocorrer também quando não existem lesões.

O vírus é contraído facilmente: estudos mostram que, em algum momento da vida, 80% das mulheres sexualmente ativas serão infectadas, estimativa que pode aumentar para homens.

Como se prevenir

O uso de camisinha é recomendado, mas nem sempre é eficaz na prevenção do HPV, já que a camisinha não cobre todas as áreas que podem ser infectadas. O HPV pode ser transmitido, por exemplo, se estiver presente na vulva, na região pubiana ou na bolsa escrotal. A camisinha feminina é mais eficaz que a masculina. Recomenda-se que pessoas em idade sexualmente ativa fiquem atentas a possíveis manifestações da doença e realizem exames preventivos com frequência.

Existe vacina para o HPV. A vacina quadrivalente, disponibilizada pelo SUS, protege contra os tipos 6, 11, 16 e 18 do vírus. A vacinação gratuita teve início no Brasil em 2014. Normalmente, podem ser vacinadas meninas de 9 a 14 anos e meninos de 11 a 13 anos. Há também esquemas de vacinação especial para portadores de HIV. A vacina também está disponível para outras faixas etárias na rede privada de saúde.

adesão à vacinação contra o HPV, porém, está baixa. Este ano, a sobra de estoque levou o Ministério da Saúde a autorizar a vacinação de pessoas de 15 a 26 anos nos municípios em que ainda havia estoque, para que as vacinas não perdessem a validade. Segundo o Ministério, os adolescentes resistem à vacina por falta de conhecimento sobre sua importância. O problema está na falta de atenção com a recomendação da campanha: dados divulgados em agosto pela pasta mostram que, entre 2014 e 2017, 75% das meninas com idades entre 9 a 15 anos tomaram a primeira dose da vacina, mas apenas 47% tomou a segunda dose.

Fonte: Inca (Instituto Nacional do Câncer)



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