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Padres do interior de São Paulo denunciam bispo por extorsão e por fechar os olhos para abusos

Seis padres denunciaram um esquema de extorsão comandado por dom Vilson Dias de Oliveira, responsável desde 2007 pela Diocese de Limeira, no interior de São Paulo. Os padres afirmam que o bispo condicionava a permanência ou a transferência de subordinados em determinadas paróquias a pagamentos em dinheiro. Há suspeitas de que ele acolhia outros clérigos com “desvio moral” e em troca fechava os olhos sobre acusações de abuso de fiéis, inclusive de menores.

Os religiosos foram ouvidos sob condição de anonimato pois, de acordo com as normas da Igreja, eles fizeram juramento de obediência ao sacerdote. Entre os denunciantes não há padres acusados de assédio sexual. O líder religioso está sob investigação do Ministério Público e do próprio Vaticano por suspeita de extorsão, coação e acobertamento de casos de pedofilia e abuso sexual pelo padre Leandro Ricardo, afastado da Basílica de Americana em janeiro.

Dom Vilson e o padre Leandro estão no centro da investigação da Igreja comandada por dom João Müller, bispo de Lorena. A CNBB e a Nunciatura, espécie de embaixada do Papa no Brasil, não comentam o caso. Procurado pela reportagem, o bispo não quis falar sobre as acusações. Padre Leandro nega as acusações. Já o MP não comenta o caso.

Algumas das acusações já estão sob investigação. No dia 13 de fevereiro, o padre Ângelo Rossi contou à polícia que, em 2012, quando era pároco da Basílica de Americana, o bispo lhe pediu R$ 50 mil para despesas com armários de sua casa em Guaíra. Após a solicitação ter sido negada, ele foi aposentado pelo bispo e substituído justamente pelo padre Leandro, o mesmo hoje afastado sob acusações de abuso sexual.

Nas novas denúncias padres afirmam terem sido coagidos a pagar ao bispo, entre 2012 e novembro de 2017, de R$ 500 e R$ 20 mil. De acordo com os padres, o bispo não escondia que seus “pedidos” eram para uso pessoal, como móveis, despesas de obras e melhorias nos 10 imóveis que possui e até festas.

Alguns casos estão bem documentados. Em 30 de novembro de 2016, o Conselho de Assuntos Econômicos da Paróquia Nossa Senhora das Graças, em Araras (SP), decidiu que não atenderia a um pedido de R$ 2 mil para uso pessoal do bispo. O encontro foi registrado em ata. Um dos padres, por sua vez, afirmou que foi coagido a repassar R$ 20 mil do caixa de uma paróquia ao bispo. Como o clérigo não conseguiu toda a quantia, acabou removido para outra igreja, mais distante .

— Foi um castigo. Dependendo do quanto você paga, o bispo te coloca nas paróquias mais ricas — diz ele.

A autoridade do bispo e a possibilidade de remoção assustavam os religiosos. O padre Reynaldo de Melo, de Engenheiro Coelho, deu R$ 3,5 mil, em novembro de 2017, para colocar um corrimão em uma das casas do bispo.

Áudio que o GLOBO teve acesso mostra uma conversa de WhatsApp de 27 de janeiro entre o padre Reynaldo e uma fonte anônima. Nele o religioso confirma o pedido de dinheiro feito por dom Vilson e diz que, após o andamento das investigações feitas pela polícia e pelo MP, foi coagido pelo bispo a encobertar o pagamento. Ainda no áudio, ele conta que teve de assinar um recibo, em 18 de janeiro, negando a coação e justificando o dinheiro como “presente de aniversário” da Paróquia.

— Deve haver uns 10 ou 15 (padres) que ele tinha nas mãos, pedia a paróquia que queria. Negociava as paróquias. Esse dinheiro, certamente, não era assim, coisa pequena: R$ 10, 15, 20, 30 mil — afirma o padre no áudio, que já foi encaminhado ao MP. Procurado, o padre não quis comentar.

Nem doente escapou
Os padres citam outros quatro párocos da região que teriam sido acusados de pedofilia e jamais foram investigados pela Igreja. Os episódios variam, segundo eles, de simples perseguições a casos graves, em que a diocese firmou acordos com familiares das vítimas, para que os relatos não se tornassem públicos. Os denunciantes dizem que dom Vilson se aproveitava destes casos para achacar ainda mais os padres. Para os sacerdotes ouvidos pelo GLOBO, o afastamento do padre Leandro da Basílica de Americana — após reportagem da “Folha de S.Paulo” — só aconteceu por conta da publicidade dada ao caso.

Dom Vilson também é acusado de dar um golpe em um padre já morto. Com acesso às declarações de imposto de renda dos padres da diocese, o bispo, em meados de 2017, pediu, de acordo com relato de parentes do padre Miranda, R$ 100 mil ao religioso, que tinha doença terminal. O valor seria devolvido mensalmente, como firmado em documento assinado por dom Vilson em 6 de julho de 2017.

Mas, após a morte do padre Miranda, seis meses depois, os depósitos teriam cessado.

— Ele afirmou ter descoberto que meu tio havia recebido um “salário errado” por muitos anos e que nós, os parentes, é que precisávamos devolver R$ 200 mil à diocese! Mas que ele zeraria isso com os R$ 100 mil, pegos, no entanto, para uso pessoal — afirmou Amelina Miranda, sobrinha do padre falecido.

A assessoria do bispo disse não ter informação do caso.

Após as primeiras denúncias virem à tona, fontes da Santa Sé disseram ao GLOBO que o caso brasileiro será usado pelo Vaticano como exemplo da sua nova política de “tolerância zero” com pedofilia e desvios. Após o início das investigações, a Igreja realizou encontro histórico no qual expôs ao alto clero suas diretrizes de combate a esse tipo de crime.

Fonte: Agência O Globo

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